Fila por transplante de córnea aumenta 24% no Brasil
Fila por transplante de córnea cresce 24% no Brasil e chega a 37.719 pessoas, reforçando a importância da doação de tecidos oculares neste mês de setembro
- Publicado: 24/09/2026 09:56
- Alterado: 24/09/2026 09:56
- Autor: Carlos Enriki
- Fonte: Assessoria
O Brasil tem atualmente 37.719 pessoas aguardando um transplante de córnea, segundo levantamento do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). O número representa um aumento de 24% em relação a dezembro de 2025, quando havia 32.639 pacientes na fila. Os dados ganham destaque no Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado em 27 de setembro.
A doação de tecidos oculares pode beneficiar pessoas que apresentam doenças capazes de comprometer a transparência ou a estrutura da córnea. Em determinados casos, o transplante pode recuperar a visão ou promover uma melhora significativa na qualidade de vida.
Doenças podem levar à necessidade de transplante
Entre as condições que podem exigir o procedimento estão o ceratocone em estágio avançado, a ceratopatia bolhosa, a distrofia de Fuchs e opacidades provocadas por infecções, traumas ou alterações congênitas.
Casos considerados mais graves podem receber prioridade na fila, como perfurações da córnea e infecções que não respondem ao tratamento. Crianças menores de sete anos com opacidade bilateral também estão entre as situações que podem ter preferência.

“O transplante é indicado quando a córnea perde sua transparência ou sua estrutura a ponto de comprometer a visão e não existem outras alternativas capazes de recuperar sua função”, explica o oftalmologista Luiz Brito, chefe do Setor de Córnea do H.Olhos.
Segundo o especialista, em situações de urgência o objetivo pode ser inicialmente preservar o próprio olho e controlar o risco provocado por problemas como perfurações ou infecções graves.
Doação depende da autorização da família
A doação de córneas ocorre após a morte e depende da autorização dos familiares. O uso de óculos ou lentes de contato e problemas comuns de visão, como miopia, hipermetropia e astigmatismo, não impedem necessariamente a doação.
Após a identificação de um possível doador, a equipe responsável avalia o histórico clínico e verifica eventuais contraindicações. Também são realizados exames laboratoriais para descartar doenças infecciosas antes da liberação do tecido para transplante.

“A córnea pode ser retirada tanto de doadores em morte encefálica quanto de pessoas que tiveram parada cardíaca”, afirma Luiz Brito. Nos casos de parada cardíaca, segundo o especialista, a retirada deve ocorrer preferencialmente até seis horas após o óbito, podendo chegar a 12 horas quando o corpo é mantido sob refrigeração.
Depois da captação, o tecido passa por uma avaliação para verificar suas condições e definir sua utilização. A córnea é então preservada em um meio específico e pode ser classificada de acordo com a qualidade e com a finalidade do transplante.
Técnica pode preservar partes saudáveis
O transplante não precisa necessariamente substituir toda a córnea. Dependendo da doença, é possível trocar apenas a camada comprometida e preservar as estruturas que permanecem saudáveis.
Uma das técnicas utilizadas em situações específicas permite substituir somente a camada mais interna da córnea, responsável por contribuir para sua transparência. Nesse procedimento, o novo tecido é colocado dentro do olho e fixado sem a necessidade de pontos na córnea.
“A evolução das técnicas permitiu que o transplante deixasse de ser, em muitos casos, uma substituição completa da córnea. Hoje conseguimos tratar determinadas doenças trocando apenas a camada que está comprometida”, afirma o especialista.
Segundo Brito, essa abordagem pode tornar o procedimento mais preciso e favorecer a recuperação visual e a reabilitação do paciente.
Recuperação exige acompanhamento médico
O período de recuperação varia de acordo com a técnica utilizada e exige acompanhamento oftalmológico regular. Nas primeiras semanas, as consultas tendem a ser mais frequentes para avaliar a cicatrização e a adaptação do tecido transplantado.

Quando o procedimento utiliza pontos, a retirada pode ocorrer meses depois, conforme a evolução de cada paciente. Mesmo após a recuperação inicial, o acompanhamento com um especialista em córnea deve continuar.
A indicação do transplante e a definição da técnica dependem da avaliação médica e das características de cada caso.
Alternativas ainda são restritas
Pesquisas estudam alternativas ao transplante tradicional, incluindo próteses e terapias celulares. Essas tecnologias, porém, ainda não substituem de forma ampla a córnea humana nos casos em que o transplante é indicado.
A ceratoprótese de Boston, por exemplo, é uma córnea artificial implantada cirurgicamente e pode ser utilizada em situações específicas, principalmente quando transplantes anteriores não tiveram sucesso. A técnica não é considerada uma alternativa de rotina e possui riscos que restringem sua indicação.
“Quando a medicina chega ao limite das alternativas disponíveis, a existência de um tecido doado pode representar a oportunidade de recuperar a visão e retomar atividades que foram prejudicadas pela doença”, destaca Luiz Brito.
Conversa sobre transplante de córnea pode fazer diferença
O Dia Nacional da Doação de Órgãos, em 27 de setembro, também é utilizado para estimular a discussão sobre o tema dentro das famílias. Embora uma pessoa possa manifestar em vida o desejo de ser doadora, a autorização familiar é fundamental para que a doação seja realizada após sua morte.
Segundo o especialista, conversar previamente com os familiares ajuda a tornar conhecida a vontade de cada pessoa e pode contribuir para esclarecer dúvidas sobre o processo.
“Doar é um ato de solidariedade que pode transformar a vida de outra pessoa. Conversar sobre essa decisão dentro de casa ajuda a família a conhecer a vontade de cada um”, afirma.
Com 37.719 pessoas na fila por um transplante de córnea, o cenário reforça a importância da doação de tecidos oculares e da discussão sobre o tema, especialmente em uma data dedicada à conscientização sobre transplantes no país.