Fila por transplante de córnea aumenta 24% no Brasil

Fila por transplante de córnea cresce 24% no Brasil e chega a 37.719 pessoas, reforçando a importância da doação de tecidos oculares neste mês de setembro

Crédito: Divulgação

O Brasil tem atualmente 37.719 pessoas aguardando um transplante de córnea, segundo levantamento do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). O número representa um aumento de 24% em relação a dezembro de 2025, quando havia 32.639 pacientes na fila. Os dados ganham destaque no Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado em 27 de setembro.

A doação de tecidos oculares pode beneficiar pessoas que apresentam doenças capazes de comprometer a transparência ou a estrutura da córnea. Em determinados casos, o transplante pode recuperar a visão ou promover uma melhora significativa na qualidade de vida.

Doenças podem levar à necessidade de transplante

Entre as condições que podem exigir o procedimento estão o ceratocone em estágio avançado, a ceratopatia bolhosa, a distrofia de Fuchs e opacidades provocadas por infecções, traumas ou alterações congênitas.

Casos considerados mais graves podem receber prioridade na fila, como perfurações da córnea e infecções que não respondem ao tratamento. Crianças menores de sete anos com opacidade bilateral também estão entre as situações que podem ter preferência.

Transplante de Córnea

O transplante é indicado quando a córnea perde sua transparência ou sua estrutura a ponto de comprometer a visão e não existem outras alternativas capazes de recuperar sua função”, explica o oftalmologista Luiz Brito, chefe do Setor de Córnea do H.Olhos.

Segundo o especialista, em situações de urgência o objetivo pode ser inicialmente preservar o próprio olho e controlar o risco provocado por problemas como perfurações ou infecções graves.

Doação depende da autorização da família

A doação de córneas ocorre após a morte e depende da autorização dos familiares. O uso de óculos ou lentes de contato e problemas comuns de visão, como miopia, hipermetropia e astigmatismo, não impedem necessariamente a doação.

Após a identificação de um possível doador, a equipe responsável avalia o histórico clínico e verifica eventuais contraindicações. Também são realizados exames laboratoriais para descartar doenças infecciosas antes da liberação do tecido para transplante.

A córnea pode ser retirada tanto de doadores em morte encefálica quanto de pessoas que tiveram parada cardíaca”, afirma Luiz Brito. Nos casos de parada cardíaca, segundo o especialista, a retirada deve ocorrer preferencialmente até seis horas após o óbito, podendo chegar a 12 horas quando o corpo é mantido sob refrigeração.

Depois da captação, o tecido passa por uma avaliação para verificar suas condições e definir sua utilização. A córnea é então preservada em um meio específico e pode ser classificada de acordo com a qualidade e com a finalidade do transplante.

Técnica pode preservar partes saudáveis

O transplante não precisa necessariamente substituir toda a córnea. Dependendo da doença, é possível trocar apenas a camada comprometida e preservar as estruturas que permanecem saudáveis.

Uma das técnicas utilizadas em situações específicas permite substituir somente a camada mais interna da córnea, responsável por contribuir para sua transparência. Nesse procedimento, o novo tecido é colocado dentro do olho e fixado sem a necessidade de pontos na córnea.

A evolução das técnicas permitiu que o transplante deixasse de ser, em muitos casos, uma substituição completa da córnea. Hoje conseguimos tratar determinadas doenças trocando apenas a camada que está comprometida”, afirma o especialista.

Segundo Brito, essa abordagem pode tornar o procedimento mais preciso e favorecer a recuperação visual e a reabilitação do paciente.

Recuperação exige acompanhamento médico

O período de recuperação varia de acordo com a técnica utilizada e exige acompanhamento oftalmológico regular. Nas primeiras semanas, as consultas tendem a ser mais frequentes para avaliar a cicatrização e a adaptação do tecido transplantado.

Quando o procedimento utiliza pontos, a retirada pode ocorrer meses depois, conforme a evolução de cada paciente. Mesmo após a recuperação inicial, o acompanhamento com um especialista em córnea deve continuar.

A indicação do transplante e a definição da técnica dependem da avaliação médica e das características de cada caso.

Alternativas ainda são restritas

Pesquisas estudam alternativas ao transplante tradicional, incluindo próteses e terapias celulares. Essas tecnologias, porém, ainda não substituem de forma ampla a córnea humana nos casos em que o transplante é indicado.

A ceratoprótese de Boston, por exemplo, é uma córnea artificial implantada cirurgicamente e pode ser utilizada em situações específicas, principalmente quando transplantes anteriores não tiveram sucesso. A técnica não é considerada uma alternativa de rotina e possui riscos que restringem sua indicação.

Quando a medicina chega ao limite das alternativas disponíveis, a existência de um tecido doado pode representar a oportunidade de recuperar a visão e retomar atividades que foram prejudicadas pela doença”, destaca Luiz Brito.

Conversa sobre transplante de córnea pode fazer diferença

O Dia Nacional da Doação de Órgãos, em 27 de setembro, também é utilizado para estimular a discussão sobre o tema dentro das famílias. Embora uma pessoa possa manifestar em vida o desejo de ser doadora, a autorização familiar é fundamental para que a doação seja realizada após sua morte.

Segundo o especialista, conversar previamente com os familiares ajuda a tornar conhecida a vontade de cada pessoa e pode contribuir para esclarecer dúvidas sobre o processo.

Doar é um ato de solidariedade que pode transformar a vida de outra pessoa. Conversar sobre essa decisão dentro de casa ajuda a família a conhecer a vontade de cada um”, afirma.

Com 37.719 pessoas na fila por um transplante de córnea, o cenário reforça a importância da doação de tecidos oculares e da discussão sobre o tema, especialmente em uma data dedicada à conscientização sobre transplantes no país.

  • Publicado: 24/09/2026 09:56
  • Alterado: 24/09/2026 09:56
  • Autor: Carlos Enriki
  • Fonte: Assessoria