Feminicídio e a cultura das “coisas de homem” que precisamos superar

A divisão artificial dos papéis de gênero limita o desenvolvimento das pessoas e sustenta uma cultura que tolera ou relativiza a violência contra a mulher

Crédito: (Imagem: Freepik)

A região do ABC acaba de registrar o maior número de feminicídios da década. Um triste dado para a região e mais triste ainda para Santo André, que lidera o ranking de assassinatos. 

Esse tipo de levantamento nunca pode ser olhado como um número frio. Cada feminicídio carrega uma história interrompida, uma família devastada, uma comunidade marcada. Mas carrega também perguntas incômodas que o poder público precisa enfrentar com coragem: o que tem sido feito efetivamente para prevenir este cenário? O que deixou de ser prioridade? Onde a rede de proteção falhou?

Santo André já foi referência em políticas públicas de cuidado e prevenção à violência de gênero. Justamente por isso, o cenário atual exige reflexão profunda. Como uma cidade que já estruturou programas de acolhimento e proteção pode assistir e liderar o crescimento desses números?

Não se trata de buscar culpados individuais para além do agressor, cuja responsabilidade é absoluta. Trata-se de compreender que o feminicídio não surge do nada. Ele é o resultado de um processo de socialização que naturaliza desigualdades e constrói relações baseadas em posse, controle e hierarquia.

Durante séculos, fomos educados a dividir o humano em categorias rígidas: força e domínio associados aos homens; cuidado e submissão atribuídos às mulheres. Essa divisão artificial não apenas limita o desenvolvimento pleno das pessoas, como também sustenta uma cultura em que a violência contra a mulher é tolerada, relativizada ou romantizada.

O Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio 

 Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio
(Divulgação/Secom/PR)

Enfrentar o feminicídio exige, entre outras milhares de coisas, políticas públicas estruturadas, orçamento garantido e integração real entre Executivo, Legislativo, Judiciário e forças de segurança. 

Exige que programas de acolhimento funcionem todos os dias, que delegacias especializadas estejam disponíveis em tempo integral, que medidas protetivas sejam monitoradas com rigor e que os dados orientem as ações preventivas. Mas exige também transformação cultural.

A violência contra a mulher e o feminicídio é um problema de formação social. É uma questão que envolve homens e mulheres, famílias, escolas, igrejas, meios de comunicação e instituições públicas.

O Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, lançado em fevereiro de 2026, representa um marco ao unir os Três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) com o objetivo de coordenar ações de prevenção, proteção e, como prioridade absoluta, o combate à impunidade no enfrentamento ao crescente número de casos de violência contra a mulher. 

O pacto contra o feminicídio foca no fortalecimento da rede de acolhimento, na agilidade na concessão de medidas protetivas e na promoção de uma mudança cultural duradoura. Para isso, estabelece um conjunto amplo de medidas e objetivos que vão desde a atuação integrada e coordenada entre os sistemas de justiça e segurança pública até a criação de um comitê de gestão dedicado ao monitoramento de metas e à produção de relatórios, assegurando transparência e a cobrança de resultados justamente para que a impunidade não prevaleça. 

Mas isso não pode ser um ato simbólico. Precisa ser prático. Com metas, recursos e avaliação constante. 

Combater o feminicídio é afirmar que nenhuma mulher é propriedade de ninguém, e que a frustração individual não justifica qualquer ato de violência. Zerar esses números implica abandonar a lógica de reação e assumir a lógica de prevenção. Precisamos educar para o respeito, acolher com seriedade, agir com rapidez e punir com rigor. O feminicídio não é inevitável.

Clóvis Girardi e Valéria Ortega

Clóvis Girardi e Valéria Ortega - PT - Santo André - Feminicídios - Mulheres
(Divulgação)

Clóvis é vereador em Santo André pelo PT.

Valéria é secretária municipal de Mulheres do PT em Santo André. 

  • Publicado: 04/03/2026 13:17
  • Alterado: 04/03/2026 13:17
  • Autor: 04/03/2026
  • Fonte: Assessoria