Brasileiros usam um terço da renda para pagar dívidas
Pesquisa da FecomercioSP revela que dívidas já consomem 30% do orçamento mensal nos lares brasileiros e aponta disparidades regionais.
- Publicado: 21/05/2026 10:07
- Alterado: 21/05/2026 10:07
- Autor: Thiago Antunes
- Fonte: FecomercioSP
O endividamento das famílias comprometeu 30% da renda mensal no início de 2026 no Brasil. A pesquisa Radiografia do Endividamento, realizado pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), revela que a taxa se mantém estável desde 2023. O cenário exige atenção redobrada das autoridades diante das profundas diferenças econômicas entre os estados brasileiros.
O levantamento mostra realidades distintas pelo território nacional. Moradores de Teresina destinam 42,4% de seus ganhos mensais para quitar débitos pendentes. O ranking das cidades com maior pressão sobre o orçamento inclui Natal (35,6%) e Macapá (35,5%). As capitais Manaus e Belo Horizonte também apresentam altos índices de estrangulamento da renda familiar.
A situação na capital mineira chama a atenção pelo crescimento acelerado do calote. “Seis em cada dez famílias da cidade tinham uma conta vencida no início de 2026, um aumento de dez pontos percentuais em relação ao ano anterior”, detalha o relatório da instituição paulista.
Disparidades no endividamento das famílias pelo país
O cenário oposto ocorre em João Pessoa, onde o endividamento das famílias atinge apenas 15% dos ganhos mensais. O Distrito Federal aparece em segundo lugar entre as menores taxas, com 22% de comprometimento. Cidades como Goiânia (26%), Palmas e Aracaju (ambas com 27%) registram números próximos à média nacional.
Os valores absolutos das dívidas reforçam o abismo geográfico na economia do país. Florianópolis registra o montante mais alto, com débitos de R$ 6,4 mil mensais por domicílio. O impacto local acaba amenizado pelo fato de a capital catarinense possuir a segunda maior renda média nacional.
Em Belo Horizonte, a pressão financeira sufoca o consumo de forma mais agressiva. Os débitos na cidade chegam a R$ 5 mil mensais, enquanto a renda média local estaciona na faixa de R$ 8,2 mil. A instabilidade econômica dificulta a manutenção das contas básicas em dia e paralisa o comércio de itens não essenciais.
Limitações do Novo Desenrola Brasil e riscos econômicos
A pesquisa alerta que oito em cada dez lares brasileiros começaram 2026 com algum tipo de conta atrasada. O governo federal aposta no Novo Desenrola Brasil para frear o endividamento das famílias, focando em linhas de crédito rotativo, cheque especial e financiamentos estudantis. O ambiente macroeconômico adverso impõe barreiras ao sucesso a longo prazo do programa.
Juros altos, inflação resistente e carga tributária pesada mantêm os consumidores no limite financeiro. O modelo atual traz mudanças operacionais importantes, permitindo negociações diretas entre clientes e bancos, sem a obrigatoriedade tecnológica de uso da plataforma Gov.br.
O governo assume agora o papel de fiador das negociações através do Fundo de Garantia de Operações (FGO). “A sociedade participa do financiamento do programa, já que o poder público cobre o calote caso o inadimplente volte a atrasar as parcelas”, alerta o documento da federação. O fundo conta com R$ 2 bilhões iniciais, podendo alcançar a marca de R$ 5 bilhões.
Impactos do FGTS e restrições a apostas online
A autorização para utilizar o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) na quitação de débitos oferece um fôlego financeiro temporário. A medida falha em resolver o endividamento das famílias de forma estrutural e expõe os trabalhadores a riscos no futuro por reduzir severamente suas reservas emergenciais em caso de demissão.
O novo formato do programa também proíbe o acesso a plataformas de apostas online por 12 meses para quem aderir às negociações de dívidas. A regra governamental visa proteger o orçamento doméstico do vício em jogos eletrônicos, um fator que cresce como destruidor de patrimônio nas classes mais baixas.
Especialistas defendem a ampliação imediata de políticas de educação financeira para a população. A conscientização sobre o uso do crédito fácil e a organização do orçamento doméstico são passos essenciais para reduzir a inadimplência crônica. Evitar a deterioração do consumo varejista requer soluções duradouras contra o avanço agressivo do endividamento das famílias brasileiras.