47% dos brasileiros deixam de comentar voto em casa, diz pesquisa
Levantamento inédito expõe a tentativa de controlar decisões políticas femininas e a alta tolerância a discursos misóginos.
- Publicado: 14/09/2026 15:41
- Alterado: 14/09/2026 15:41
- Autor: Thiago Antunes
- Fonte: Hibou
A proximidade das Eleições 2026 reacende debates sobre dinâmicas de poder dentro das próprias casas brasileiras. Um levantamento recém-publicado mostra que 47% dos brasileiros deixam de comentar votos em casa para evitar conflito. O cenário aponta para uma pressão silenciosa e contínua sobre a autonomia das mulheres eleitoras no país.
Os números compõem um estudo da Hibou Pesquisas e Insights, encomendado para a plataforma educacional Red é de Sangue. O projeto combate a influência misógina na internet e conta com o apoio da HeForShe, movimento global da ONU Mulheres, e de organizações como o Sindilegis e o Grupo MEMOH.
Ouvindo 1.449 eleitores no início de setembro, a pesquisa mapeou comportamentos estruturais que afetam o processo democrático. Diferentes estatísticas ilustram as tentativas diárias de deslegitimar a escolha feminina:
- 22% dos homens consideram aceitável tentar convencer insistentemente a parceira a mudar o voto;
- 67% dos brasileiros já ouviram frases afirmando que mulher não sabe votar;
- 1 em cada 4 homens brasileiros acredita que mulheres são mais emocionais, prejudicando suas decisões políticas;
- 47% da população sabe que existe nas redes uma tentativa de desestimular o voto feminino.
Eleições 2026 exigem atenção à misoginia estrutural

O controle da decisão feminina ganha frequentemente contornos de pauta doméstica. Os pesquisadores identificaram que 16% dos homens acham que o casal deve decidir junto em quem votar, anulando a individualidade da escolha. Quando há discordância, a insistência masculina em reverter a posição da parceira atinge mais que o dobro do índice verificado entre as mulheres.
Esse comportamento expõe uma dualidade profunda no discurso social. Questionados de forma direta, 98% dos homens afirmam que homens e mulheres têm a mesma capacidade de avaliar candidatos. A análise comportamental, no entanto, revela um viés machista latente e amplamente tolerado na corrida para as Eleições 2026.
A desqualificação intelectual acontece de forma expressiva e assimétrica. Os dados indicam que 70% das mulheres afirmam que uma figura feminina de opinião política forte é chamada de histérica ou desequilibrada. Apenas 28% dos homens reconhecem que essa agressão verbal acontece.
Essa diferença de percepção domina o ambiente digital. A pesquisa revela que 62% das mulheres já viram posts dizendo que eleitoras são facilmente manipuláveis, enquanto apenas 33% do público masculino relata ter visto esse tipo de conteúdo circulando online.
Tolerância ao candidato machista
A escolha de representantes para as Eleições 2026 escancara prioridades distintas entre os gêneros. Enquanto 96% dos brasileiros deixariam de votar em candidato com histórico de corrupção, o discurso misógino passa ileso para uma parcela significativa do eleitorado masculino.
A pesquisa aponta que somente 23% dos eleitores homens dizem levar em conta falas machistas do candidato na hora de votar. Do outro lado, o alerta soa como prioridade máxima para o público feminino, já que 80% das mulheres eleitoras levam em consideração as declarações machistas de um político.
As raízes dessa normalização ganham força com o avanço de conteúdos radicalizados na internet. “É a misoginia do voto, um conjunto de crenças enraizadas e normalizadas que permeiam movimentos contra o voto feminino nas redes sociais, encabeçados por influenciadores Red Pill”, diz Ligia Mello, CSO da Hibou e Coordenadora da Pesquisa.
O material completo do levantamento e os tutoriais para denúncias de ódio online estão acessíveis ao público na plataforma digital da organização. A conscientização surge como ferramenta central para proteger o processo democrático.
“A misoginia não vive só nas redes. Ela está na forma como o voto da mulher ainda é tratado como assunto coletivo, como algo a ser negociado ou convencido”, diz Ana Beatriz Schauff, CEO da Fresh PR e idealizadora do Red é de Sangue. O enfrentamento pela comunicação projeta um cenário onde as Eleições 2026 ocorram com pleno respeito à individualidade das brasileiras.