Ela veio se despedir
Durante uma tempestade, um gesto de acolhimento transforma a despedida de uma borboleta em um momento de silêncio e conexão profunda em meio ao caos urbano
- Publicado: 23/06/2025 19:30
- Alterado: 25/06/2025 09:47
- Autor: Thiago Quirino
- Fonte: ABCdoABC
Em uma sexta-feira eu estava no novo apartamento preparando os últimos detalhes para a mudança que ocorreria no dia seguinte. Eu precisava deixar tudo pronto para receber os móveis e eletrodomésticos, por isso, minha missão era deixar funcional uma tomada sem vida.
Enquanto acompanhava o serviço do eletricista, uma forte tempestade se armou lá fora. Os ventos faziam um assobio constante pelas frestas da vidraça que protegia toda a varanda. O som do vento e sua pressão sobre os vidros prenunciava a intensidade da chuva que chegava.
Lá do alto do décimo andar, observei pedestres correndo contra o tempo para se proteger. Grandes gotas começaram a cair, espalhando o cheiro de asfalto, concreto e terra molhada, o último aviso dos momentos de caos que se seguiram. O céu escureceu, houve um minuto de silêncio e, tal qual um arauto anunciando a chegada do exército de cavaleiros dispostos a cumprir sua missão conquistadora, um relâmpago clamou: “Atacar!”, dando início à tempestade.
Os soldados de água começaram a atacar por todos os lados, tudo era tido como inimigo: pessoas na rua, folhas das árvores, os carros na avenida e até a estrutura de concreto do prédio de apartamentos. Todos foram atacados com incrível violência por uma enxurrada brutal.
No meio do tumulto das gotas camicazes que se jogavam contra o vidro, ouço um grito de socorro. Olho diretamente para a direção de onde vinha o pedido. Uma borboleta se segurava com todas as forças na parede, em um pequeno recuo que a abrigava da chuva, mas não do intenso vento. Ela me encarava e me dizia: “Por favor! Não posso aguentar muito tempo”.
Como eu poderia ajudar? Se eu abrisse a janela eu seria atacado pela cavalaria aquática. Mas o pedido de socorro era autêntico. Por um instante, aquelas milhares de lentes que fragmentavam a luz em cores delicadas dos olhos da borboleta, como em um caleidoscópio, deixaram uma mensagem fácil de decifrar. Eu precisava agir.
Abri a janela, aproximei o indicador e como que por instinto, a pequena alada não perdeu tempo. Agarrou-se a mim enquanto eu a conduzia para dentro do apartamento. Suas pernas tremiam. Com a janela fechada, ela já não corria risco. O repouso era certo. Permiti com que descansasse na parede, do lado de cá da proteção de vidro temperado.
A tempestade durou vários minutos, tempo mais que necessário para provocar alagamento, acidente de trânsito, sequestrar a tampa de uma caixa d’água de uma lavanderia que foi deixada metros de distância de onde deveria estar. Mas tão de repente como iniciou, tudo parou.
A noite temporária retrocedeu para um fim de tarde belo, fresco. Este parecia ser o cenário ideal para que minha aliada em miniatura retomasse o rumo de suas atividades de inseto. Abri a janela. Ela se mostrava apreensiva em sair. Precisei incentivar com palavras simples: “Acabou, pode ir. Mas se precisar, volte”. Ela foi.
Em um voo cambaleante, ela se distanciou em segurança.
No domingo, ainda em meio às caixas de papelão repletas de miudezas de casa que eu tentava organizar, parei para observar o sol se pondo no horizonte de prédios. Minha amiga voltou.
Desta vez, sem nenhum desespero, ela pousou nos fios da tela de proteção e me encarou. Ela veio se despedir sem dizer palavras. Me encarou com profundidade de modo que eu soube exatamente o que aconteceria a seguir. Antes que eu pudesse argumentar o destino que a natureza reservou para aquele pequeno animal, suas pernas falharam e a brisa cumpriu seu papel de depositá-la suavemente no chão da varanda. Ela veio morrer em um dos poucos lugares seguros daquela terrível selva de pedras.
Thiago Quirino

Thiago é jornalista por formação e contador de histórias por vocação. Com mais de 15 anos de experiência entre redações, agências e instituições públicas, percorreu os vastos territórios da comunicação com olhar atento e escuta refinada. Formado pela Universidade Cruzeiro do Sul, especializou-se em comunicação estratégica, media training e gestão de crises, competências que o conduziram a posições de liderança, como Secretário de Comunicação de Ribeirão Pires e diretor de redação em diversos veículos. Atualmente, está à frente da Diretoria de Produtos Editoriais do portal ABC do ABC. Quirino acredita, com alma e método, que a comunicação bem feita não apenas informa, mas tem o poder de transformar realidades.