Entenda o que é o El Niño e como ele pode alterar o clima global em 2026
OMM aponta 80% de chance para o fenômeno, que pode impactar chuvas, temperaturas, agricultura, energia e inflação no Brasil e no mundo
- Publicado: 03/06/2026 16:27
- Alterado: 03/06/2026 16:27
- Autor: Thiago Antunes
- Fonte: ABCdoABC
O aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial indica que o El Niño deve se estabelecer no Brasil e no mundo entre junho e agosto de 2026. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgou um alerta na terça-feira (2) apontando 80% de probabilidade para a formação do evento climático. A agência prevê uma intensidade ao menos moderada, com risco de prolongamento até novembro, exigindo ações rápidas de mitigação por parte de governos e empresas.
O que causa o El Niño e como ele altera o clima

“O El Niño é um fenômeno climático de escala global que se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial”, explica Hiremar Soares, meteorologista e professor de Aviação da Universidade Anhembi Morumbi. O especialista detalha que os ventos alísios perdem força, permitindo que massas de água quente se concentrem perto da costa da América do Sul, alterando os padrões de pressão e umidade globais.
O debate sobre a influência das mudanças climáticas no evento divide cientistas. Hiremar Soares defende que a intensidade do aquecimento oceânico reflete a variabilidade natural e ciclos de longo prazo, como a Oscilação Decadal do Pacífico. O meteorologista rejeita associações diretas e exclusivas com o aquecimento global, tratando a oscilação de temperatura como um evento regular de redistribuição de calor do planeta.
A relação entre o evento e desastres naturais imediatos também exige cautela técnica. Frentes frias travadas e o transporte de umidade da Amazônia causam as enchentes históricas, operando na escala de dias. A ocorrência do El Niño eleva a probabilidade de chuvas volumosas no Sul, mas as catástrofes específicas dependem de combinações meteorológicas de curtíssimo prazo.
Monitoramento da OMM aponta anomalias oceânicas
O último ciclo do fenômeno ocorreu entre 2023 e 2024, coincidindo com os anos mais quentes já registrados pelas agências de monitoramento. Sinais captados entre o final de abril e meados de maio mostram que as temperaturas na porção centro-leste do Pacífico já se aproximam dos níveis que caracterizam a alteração climática.
Medições abaixo da superfície do oceano revelam anomalias ainda mais expressivas para a comunidade científica. Determinadas áreas monitoradas apresentaram temperaturas superiores em até 6°C acima das médias sazonais. Esse acúmulo de calor em profundidade fornece a energia necessária para intensificar o aquecimento nos próximos meses.
Impactos no Agronegócio e Salto na Inflação

O setor agropecuário brasileiro enfrenta um cenário de vulnerabilidade diante da alteração no regime de chuvas. Projeções conjuntas da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenham um mapa de riscos regionais para o segundo semestre de 2026.
A região Sul lida com o excesso de precipitações, que ameaça as colheitas de trigo e favorece doenças fúngicas. As regiões Norte e Nordeste encaram estiagens severas, enquanto o Sudeste e o Centro-Oeste sofrem com ondas de calor que afetam o desenvolvimento do café e da cana-de-açúcar, além de degradarem as pastagens destinadas à pecuária.
Essa quebra na produção de alimentos atinge diretamente o bolso do consumidor. O custo de frutas, legumes e hortaliças pode sofrer uma alta de até 15%. “O Brasil terá de transformar vulnerabilidade em oportunidade para garantir resiliência diante de um dos maiores desafios de sua história recente”, alerta Júnior Rozante, CEO da RZ3, consultoria focada em soluções estratégicas para o agronegócio.
Setor elétrico sob pressão hidrológica
A possibilidade de formação de um evento de grande magnitude acende o alerta máximo para a geração de energia no país. Modelos climáticos indicam que o aquecimento do Pacífico pode ultrapassar os 2°C, prolongando a seca no Norte e atrasando o período úmido nas bacias essenciais do Sudeste e Centro-Oeste.
“Os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste ainda operam em níveis relativamente confortáveis, mas o atraso das chuvas e as temperaturas elevadas devem acelerar o consumo dessas reservas”, aponta Matheus Machado, especialista do Grupo Bolt. A dependência de usinas térmicas pressiona o mercado e eleva a chance de bandeiras tarifárias vermelhas para o consumidor final.
Companhias buscam alternativas de proteção financeira contra essa volatilidade imediata. “Em um cenário de maior instabilidade climática, energia deixa de ser apenas uma linha operacional e volta a se tornar uma variável crítica de previsibilidade de caixa”, destaca Philipe Kilzer, diretor de Operações Estruturadas do Grupo Bolt.
Operação estiagem e tecnologia preventiva

A antecipação dos impactos mobiliza a Defesa Civil do Estado de São Paulo e as administrações municipais. O governo paulista anunciou o painel de inteligência do programa SP Sem Fogo 2026. A estratégia utiliza satélites, inteligência artificial e uma parceria com o aplicativo Waze para rastrear focos de incêndio florestal nas rodovias em tempo real.
“Estamos fortalecendo a operação com inteligência, monitoramento em tempo real e ampliação da capacidade operacional dos municípios para reduzir riscos”, declarou o coordenador estadual de Proteção, Rinaldo de Araujo Monteiro. A estrutura paulista ganhou reforço de 100 caminhões-pipa e ampliou sua cobertura para 613 cidades.
Em Santo André, o Departamento de Proteção e Defesa Civil iniciou ações focadas no período crítico de agosto e setembro. A prefeitura mapeou áreas de risco, como o Parque Guaraciaba, e previu a inauguração do Centro de Gerenciamento de Riscos e Desastres (CGRD) com recursos do Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro).
O foco da meteorologia moderna está na infraestrutura de prevenção absoluta, superando o modelo de socorro após os desastres. “Lidar com o clima é lidar com vidas. O que realmente preocupa é a necessidade de o Brasil avançar e se espelhar em países desenvolvidos, transformando o monitoramento e as Defesas Civis em políticas de Estado permanentes”, conclui Soares, cobrando obras estruturais antes que o El Niño atinja seu pico máximo no verão.