ECA 36 anos: os riscos da exposição de menores na mídia
No aniversário do ECA, especialista alerta para os riscos psicológicos do "sharenting" e da superexposição precoce de menores nas redes
- Publicado: 13/07/2026 11:47
- Alterado: 13/07/2026 11:48
- Autor: Daniela Ferreira
- Fonte: Assessoria
No dia 13 de julho, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa 36 anos como o principal marco legal de proteção integral à infância e à juventude no Brasil. A efeméride em 2026 reacende uma discussão que ganhou proporções inéditas com a popularização da internet, mas que remonta às origens do entretenimento de massa: a exposição excessiva de crianças e adolescentes na mídia.
Se no passado a imagem de menores era explorada comercialmente em novelas, concursos de beleza, publicidade televisiva e programas de auditório, hoje o fenômeno se descentralizou. Com as redes sociais, o compartilhamento constante de rotinas, o chamado sharenting (prática de pais compartilharem a vida dos filhos na internet) e a ascensão dos influenciadores mirins trouxeram novos desafios psicológicos e éticos.

O Impacto Psicológico da Exposição Precoce
Especialistas alertam que a exposição de imagem sem o devido filtro ou maturidade pode deixar marcas profundas que ultrapassam a infância e se manifestam de forma severa na vida adulta. A criança que é transformada em personagem ou fonte de engajamento online muitas vezes cresce sob a pressão da espetacularização de sua própria existência.
Para a psicóloga clínica Soraya Oliveira, que atua no centro clínico Órion Complex, em Goiânia, a superexposição compromete o desenvolvimento saudável da identidade e da autoestima.
“A exposição precoce pode gerar ansiedade, insegurança, necessidade constante de aprovação, medo de críticas e perda de privacidade. Além disso, aumenta significativamente o risco de sofrer cyberbullying e pode comprometer a estruturação emocional do indivíduo”, esclarece a profissional.
Casos que Ampliaram o Debate Público

A discussão sobre os limites da exposição e do trabalho infantil no entretenimento ganhou força com relatos reais de figuras públicas brasileiras e internacionais que vivenciaram a transição da infância para a vida adulta sob os holofotes:
- Jennette McCurdy: A ex-atriz norte-americana, conhecida por interpretar a personagem Sam Puckett nas séries juvenis iCarly e Sam & Cat da Nickelodeon, expôs em seu livro de memórias “Estou feliz que minha mãe morreu” a exaustiva rotina de controle imposta por sua mãe. Jennette relata que iniciou a carreira na infância por pressão familiar e detalha o desenvolvimento de transtornos alimentares e ansiedade severa decorrentes da pressão estética e profissional. Ela abandonou a atuação de forma definitiva em $2017$;
- Larissa Manoela: No cenário nacional, a atriz que iniciou os trabalhos aos $4\text{ anos}$ de idade e protagonizou o remake da telenovela Carrossel em $2012$ tornou-se o centro de um debate jurídico-familiar em $2023$. Já adulta, a atriz revelou ter assumido o controle de sua própria carreira e finanças após divergências financeiras e patrimoniais com os pais, que geriam seus negócios desde a infância. O caso levantou discussões fundamentais sobre a autonomia de jovens artistas e a gestão de bens produzidos por menores.
O Fenômeno do “Sharenting” e as Crianças Anônimas
A preocupação de educadores e psicólogos, contudo, não se restringe à fama ou à vida de jovens celebridades. A exposição excessiva de crianças anônimas por seus próprios pais nas redes sociais é um fenômeno diário. Fotos de momentos de vulnerabilidade, choro, broncas, intimidade no banho ou incidentes escolares são publicadas em busca de curtidas.
Esses registros digitais criam uma “pegada digital” precoce e indelével. Uma vez publicado, o conteúdo escapa do controle da família e pode ser utilizado de forma inapropriada, gerando constrangimentos para a criança no presente e, futuramente, em sua vida social, acadêmica e profissional.
“Fazer registros de momentos especiais pode fazer parte da história da família. O excesso acontece quando a vida da criança é compartilhada de forma constante, sem respeitar sua privacidade, seus limites ou seu direito de não querer aparecer ou de se expor”, reitera Soraya Oliveira.
Acesso à Internet Cada Vez Mais Precoce

Os dados do relatório TIC Kids Online Brasil 2025 demonstram a magnitude da presença infanto-juvenil no espaço virtual:
- Conectividade: 92% dos brasileiros de 9a 17 anos são usuários ativos de internet, o que representa aproximadamente 24 milhões de crianças e adolescentes conectados;
- Acesso Precoce: 28%. dos entrevistados relataram que o seu primeiro acesso à rede ocorreu antes dos 6 anos de idade.
Diante de uma infância cada vez mais mediada por telas e algoritmos, a psicóloga reforça que o papel dos responsáveis não deve se resumir à restrição do tempo de uso, mas sim à salvaguarda da privacidade emocional.
Sinais de Alerta para os Pais
Os responsáveis devem monitorar mudanças de comportamento que possam indicar prejuízos decorrentes do uso das redes ou da exposição de imagem:
- Mudanças bruscas de humor, quadros frequentes de ansiedade ou isolamento social;
- Preocupação excessiva e obsessiva com a aparência física e com métricas digitais (número de seguidores, curtidas e comentários);
- Manifestação de frustração, tristeza profunda ou irritabilidade excessiva quando há privação do uso da internet ou de dispositivos eletrônicos.