Documentário sobre Bolsonaro estreia com salas vazias e falhas de distribuição
Produção do documentário de Jair Bolsonaro fica fora do eixo Rio-São Paulo e levanta suspeitas sobre uso de verba parlamentar
- Publicado: 16/05/2026 08:35
- Alterado: 16/05/2026 08:35
- Autor: Gabriel de Jesus
- Fonte: FolhaPress
O documentário “A Colisão dos Destinos”, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, chegou ao seu primeiro final de semana de exibição enfrentando um cenário de baixo engajamento e problemas logísticos. Sob a direção de Doriel Francisco, a obra está presente em 17 estados, mas registra uma ausência estratégica nos dois principais mercados cinematográficos do país: São Paulo e Rio de Janeiro.
Especialistas do setor audiovisual apontam que a combinação de um tom político acentuado em ano eleitoral e uma estratégia de lançamento precária contribuiu para o isolamento da obra. “Esse documentário não foi lançado, ele foi arremessado”, afirma Humberto Neiva, coordenador de cinema da Faap e experiente programador do circuito nacional.
Desconhecimento do mercado e ausência de grandes redes
Diferente de lançamentos convencionais, a biografia de Bolsonaro não passou pelo crivo das grandes distribuidoras ou redes como Cinemark e Kinoplex. A exibição tem ocorrido em marcas menores, como o Grupo Cine e Cinemas Premier. Segundo proprietários de salas tradicionais, o mercado sequer foi consultado sobre o interesse no filme.
“O dono da sala quer ver a sala cheia, não importa a questão ideológica. Se eles não passaram nesses lugares, é porque acham que as pessoas não querem ver”, avalia Cláudio Marques, exibidor do Cine Glauber Rocha.
Em levantamento realizado na última sexta-feira, sessões em cidades do interior paulista registraram ocupação mínima. Em municípios como Itapetininga e Rio Claro, a procura variou entre zero e dez assentos ocupados por sessão, evidenciando a dificuldade de Bolsonaro em atrair público pagante para os cinemas através desta produção independente da Dori Filmes.
Conexões políticas e financiamento sob análise
A estrutura de produção do documentário revela um elo direto com o núcleo político do ex-presidente. O argumento da obra é assinado pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), que também colaborou na articulação de depoimentos da família de Bolsonaro.
Embora o diretor Doriel Francisco afirme que utilizou recursos próprios, dados da cota parlamentar mostram repasses de R$ 22.432 feitos por Mário Frias à produtora Dori Filmes entre abril e julho de 2024. Frias justifica que o valor refere-se a serviços de publicidade parlamentar e não diretamente ao filme.
Conteúdo foca no lado humano de Bolsonaro
Com 70 minutos de duração, o filme busca apresentar uma perspectiva íntima, trazendo depoimentos de familiares e aliados próximos. O roteiro evita temas institucionais para focar em momentos emotivos, como o choro de Carlos Bolsonaro e recordações de infância contadas por Solange, irmã do ex-mandatário.
Apesar de o diretor classificar a obra como um “filme cultural” e não político, a presença de figuras como Eduardo Bolsonaro na articulação e o financiamento via emendas parlamentares para projetos paralelos da mesma produtora mantêm o documentário sob o escrutínio de órgãos de controle e do mercado audiovisual. No momento, o futuro de Bolsonaro nas telas de cinema parece restrito a nichos específicos, longe do alcance das massas alcançado por produções similares no passado.