Dança em SP traz espetáculo Comunidade de graça
A cena cultural paulistana ganha fôlego renovado com a circulação da dança em SP em palcos municipais da Lapa e de Santo Amaro neste mês
- Publicado: 07/11/2026 16:44
- Alterado: 07/11/2026 16:44
- Autor: Leonardo Nogueira
- Fonte: Assessoria
O palco vira arena de contestação. O circuito de dança em SP recebe em novembro duas temporadas gratuitas do espetáculo Comunidade, concebido pela Cia. Perversos Polimorfos para discutir os limites da convivência coletiva e o peso das tradições patriarcais. As apresentações ocorrem de 13 a 15 de novembro no Teatro Cacilda Becker, na Lapa, e seguem para o Teatro Paulo Eiró, em Santo Amaro, entre os dias 20 e 22, com retirada de ingressos uma hora antes na bilheteria física ou por reserva online antecipada.
A coreografia parte da partitura revolucionária de A Sagração da Primavera, composta por Igor Stravinsky e montada por Vaslav Nijinsky em 1913. O diretor geral Ricardo Gali revisita o mito ancestral do sacrifício para investigar por que grupos sociais ainda escolhem aniquilar indivíduos sob o pretexto de preservar a harmonia da maioria, elegendo quase sempre o corpo feminino como alvo preferencial de punição.
Esse olhar crítico desafia convenções cênicas ao propor a solidariedade como resposta política. Ao afastar a ideia de expiação pela dor, o projeto transforma a experiência da dança em SP em um manifesto vívido pela diversidade, pelo cuidado compartilhado e pela afirmação inegociável da existência humana.
Dança em SP desconstrói o ritual do sacrifício
A montagem nasceu de um estudo iniciado em 2021 sobre as partituras históricas de Stravinsky e os impactos emocionais do período pandêmico. O elenco desdobra os 50 minutos de apresentação em três movimentos complementares intitulados “A Festa”, “O Silêncio” e “O Espanto da Morte”:
- Coreografia dividida em três atos progressivos que tensionam controle social e liberdade;
- Oito intérpretes em cena explorando gestos viscerais e partituras rítmicas de fôlego curto;
- Trilha sonora contemporânea desenvolvida pelo músico Lourenço Rebetez;
- Iluminação cênica desenhada por Jo Rios para demarcar os limites do confinamento;
- Acessibilidade completa com sessão de audiodescrição conduzida por AD Adamy no dia 22.
A criação teórica mobilizou dezenas de debates com pensadores e criadores renomados do país. Nomes como os psicanalistas Christian Dunker e Suely Rolnik, além da diretora teatral Carolina Bianchi e da coreógrafa Gal Martins, contribuíram com reflexões que atravessam cada movimento no tablado:
“Mais do que reproduzir um ritual de extermínio, o trabalho questiona pactos invisíveis que sustentam convenções sociais e convida o público a pensar alternativas reais de convivência.”
Essa abordagem analítica foge da simples reprodução estética do balé clássico. O grupo expõe as fraturas de um modelo comunitário que exige conformidade cega, propondo o acolhimento das singularidades como antídoto para a violência cotidiana.
Quinze anos de trajetória da Cia. Perversos Polimorfos

A circulação coroa uma década e meia de pesquisa ininterrupta do grupo paulistano, viabilizada pelo fomento municipal da Secretaria de Cultura. Criada em 2009 sob a direção de Ricardo Gali, a companhia construiu um acervo expressivo com 13 espetáculos e três obras cinematográficas exibidas no Brasil, na Alemanha, na Colômbia e na França.
O repertório do coletivo acumula reconhecimentos expressivos da crítica especializada:
- Três troféus do Prêmio Denilto Gomes conquistados em 2017, 2020 e 2021;
- Indicações formais ao Prêmio APCA e ao Prêmio Bravo! por trabalhos anteriores;
- Criação do Festival Ensaios Perversos voltado à pesquisa corporal colaborativa;
- Financiamentos de programas públicos como ProAC, Lei Aldir Blanc e Prêmio Funarte.
A distribuição das datas entre a zona oeste e a zona sul descentraliza a agenda de lazer da metrópole. As sessões acontecem sempre às sextas e sábados, pontualmente às 20h, e aos domingos, às 19h, com recomendação etária indicativa a partir dos 14 anos.
A arte do movimento cumpre sua vocação pública ao ocupar teatros de bairro com reflexões contundentes sobre alteridade e respeito. Ao transformar a memória de uma obra centenária em manifesto de resistência comunitária, a temporada de dança em SP entrega um dos programas culturais mais relevantes do calendário de novembro na capital.