Crianças Offline: inclusão social e deficiência 

No quarto episódio da série especial do ABCdoABC, a história de Matheus mostra que inclusão social vai além da escola e chega à autonomia

Crédito: Via ChatGPT

Ele reside em São Bernardo do Campo, e aos 15 anos, Matheus gosta de jogar no celular, estudar Matemática e Inglês, praticar atletismo e frequentar o SESI. Também vai à escola, à igreja, à clínica e à APAE, além de conseguir utilizar o transporte público. Ele conta que já tem autonomia para andar, comer, tomar banho, conversar e se defender. Mas ainda há coisas que gostaria de conquistar: sair sozinho, ter mais oportunidades de convivência e poder aproveitar melhor os espaços da cidade.

Quando perguntado sobre o que gostaria que as pessoas soubessem antes de conhecer sua deficiência, Matheus responde de forma simples: “sou uma pessoa como qualquer outra”.

É a partir dessa frase que o quarto episódio de Crianças Offline discute inclusão social e deficiência. A história do adolescente ajuda a mostrar que inclusão social não se resume a oferecer uma vaga na escola, um atendimento de saúde ou uma estrutura física adaptada. Para um adolescente, inclusão social também passa por amizade, lazer, esporte, autonomia, respeito, circulação pela cidade e possibilidade de construir planos para o futuro.

A discussão encontra respaldo na Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que publicou uma atualização sobre a inclusão de crianças e adolescentes com deficiência. O documento, elaborado pelo Departamento Científico de Adolescência, propõe que a deficiência não seja o único ponto a definir a pessoa. A orientação é ampliar o olhar para suas capacidades, potencialidades, autonomia e participação na sociedade.

Essa perspectiva ajuda a entender que inclusão social é uma construção que envolve toda a comunidade, e não apenas a pessoa com deficiência e sua família.

Inclusão social começa quando a deficiência deixa de definir a pessoa

Matheus considera sua relação com a escola boa. Ele gosta especialmente das aulas de Matemática e Inglês e conta que, em alguns momentos, consegue acompanhar as atividades como gostaria. Também reconhece a importância da professora auxiliar que o acompanha. Às vezes os professores entendem minhas necessidades“, conta.

Ao mesmo tempo, existem situações que dificultam sua participação. O principal incômodo dentro da sala de aula é o barulho. Matheus gostaria de conseguir participar melhor das atividades, mas explica que a escola e a minha sala são muito barulhentas.

A situação mostra que uma escola pode oferecer apoio e, ao mesmo tempo, ainda ter barreiras a serem enfrentadas. Para a SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), inclusão social na educação não significa apenas colocar o aluno com deficiência dentro da mesma sala dos demais. É necessário adaptar o ambiente, as estratégias e as condições de aprendizagem para que todos possam participar.

Essa diferença é importante. Estar no mesmo espaço não significa, necessariamente, estar incluído. A inclusão social envolve convivência, participação e oportunidades reais de desenvolvimento.

A própria atuação do profissional de apoio precisa ser pensada nessa perspectiva. Segundo a SBP, o acompanhamento deve considerar as necessidades do estudante e favorecer sua autonomia, evitando que a ajuda se transforme em dependência. A recomendação dialoga diretamente com a experiência de Matheus, que reconhece o apoio recebido, mas também diz que gostaria de conquistar mais independência.

Nesse sentido, a inclusão social não deve ser medida somente pela presença do adolescente na escola, mas pela possibilidade de ele participar efetivamente da rotina escolar e desenvolver suas próprias capacidades.

Aos 15 anos, autonomia também faz parte da inclusão social

Matheus consegue realizar diversas atividades sozinho. Ele anda, come, toma banho, conversa e consegue se defender. Mas ainda não costuma sair sem a mãe. Quando perguntado sobre o que gostaria de conseguir fazer, responde de maneira direta: Gostaria de conseguir sair sozinho.”

A família oferece liberdade, mas com supervisão. E o próprio adolescente percebe que existe um equilíbrio difícil entre cuidado e independência. Às vezes sinto que as pessoas me protegem demais e, outras vezes, não“, afirma.

A SBP aborda justamente esse equilíbrio ao recomendar às famílias “cuidar sem tolher”. A proposta não é retirar a proteção necessária, mas permitir que crianças e adolescentes desenvolvam progressivamente suas próprias capacidades. A autonomia aparece no documento como um dos objetivos centrais da inclusão social, inclusive na possibilidade de desenvolver habilidades para a vida cotidiana e para ir e vir.

Essa questão ganha ainda mais importância durante a adolescência. Aos 15 anos, conquistar autonomia faz parte do próprio processo de desenvolvimento. No caso de adolescentes com deficiência, isso exige que família, escola, profissionais de saúde e poder público encontrem maneiras de oferecer segurança sem limitar desnecessariamente as possibilidades de participação.

Para Matheus, independência tem um significado bastante concreto: “é poder fazer minhas coisas sozinho”.

Por isso, falar em inclusão social também significa falar em autonomia: não apenas oferecer ajuda, mas criar condições para que o adolescente desenvolva cada vez mais independência.

Quando a falta de amigos também vira uma barreira

Se a escola representa uma parte importante da vida de Matheus, ela não é o único espaço em que a inclusão social precisa acontecer. O adolescente conta que não possui um grupo de amigos e que não é chamado para programas com outros adolescentes. “Não fui chamado para esses programas“, diz.

Por isso, acaba saindo principalmente com a mãe. Ele conta que consegue circular um pouco sozinho, mas ainda não tem uma rede de amigos com quem possa dividir passeios e atividades. A situação chama atenção para uma dimensão da inclusão social que pode passar despercebida quando a discussão fica restrita à acessibilidade física ou ao atendimento especializado.

A SBP considera as relações interpessoais e a participação social elementos importantes para a qualidade de vida de crianças e adolescentes com deficiência. Isso significa ter oportunidades de convivência, estabelecer relações e participar dos espaços disponíveis na comunidade.

No caso de Matheus, não existe necessariamente uma barreira física impedindo que ele esteja com outros adolescentes. Existe uma barreira social: ele não está sendo chamado para estar com eles.

A inclusão social, portanto, também precisa responder a uma pergunta mais delicada: como garantir que adolescentes com deficiência façam parte da vida social de seus pares, e não apenas da estrutura formal da escola?

Bullying mostra que acessibilidade também passa pelo comportamento

Matheus conta que já sofreu bullying dentro da sala de aula. Quando isso acontece, fica nervoso e irritado. “Quando isso acontece, fico nervoso e irritado”, explica.

Ele também relata que percebe, em diferentes situações, pessoas tratando-o de maneira diferente por causa da deficiência. Para o adolescente, algumas pessoas compreendem sua condição, enquanto outras não. “Acho que depende das pessoas. Algumas entendem a deficiência e outras não”, afirma.

A Sociedade Brasileira de Pediatria aponta atitudes negativas, discriminação e falta de informação como obstáculos à igualdade de oportunidades. A convivência entre pessoas com e sem deficiência, nesse sentido, também é uma ferramenta de transformação: quanto mais a diferença é conhecida e vivenciada, menor tende a ser o espaço para estereótipos e preconceitos.

A inclusão social não termina quando o adolescente consegue entrar na sala de aula. É preciso que ele possa participar dela, construir relações e ser respeitado pelos colegas.

É por isso que a história de Matheus também levanta uma questão para as escolas: quais estratégias existem para combater o bullying e garantir que alunos com deficiência tenham uma experiência de convivência efetivamente inclusiva?

Acessibilidade não é só rampa

Quando se fala em acessibilidade, rampas, elevadores, banheiros adaptados e transporte costumam ser os primeiros exemplos lembrados. Eles são fundamentais, mas a experiência de Matheus mostra que existem outras barreiras.

Ele diz que consegue circular pela cidade e utilizar o transporte público, mas se incomoda especialmente com ambientes muito barulhentos. Fogos de artifício são uma das situações que mais o incomodam. “O que mais me incomoda são lugares com muito barulho, principalmente com fogos de artifício”, conta.

Por causa disso, existem espaços que prefere evitar. Quando pensa no que poderia melhorar na cidade, Matheus fala em parques que sejam pensados para diferentes idades e que tenham menos estímulos sonoros. “Eu gostaria que existissem parques para todas as idades, sem barulho de fogos de artifício e sem muitas gritarias”, afirma.

A SBP apresenta a acessibilidade de maneira mais ampla, relacionando-a à autonomia, mobilidade, segurança, confiança e participação. A ideia de inclusão social, portanto, precisa considerar também as características dos ambientes e as diferentes necessidades das pessoas.

Para Matheus, conseguir chegar a um espaço não é suficiente. Ele também precisa conseguir permanecer nele e aproveitar o que aquele espaço oferece.

Essa é uma discussão que pode alcançar praças, parques, eventos, atividades culturais e esportivas: até que ponto esses ambientes foram pensados para diferentes formas de interação e diferentes necessidades?

Nesse cenário, a inclusão social passa também por uma acessibilidade que nem sempre é visível. É preciso pensar não apenas em quem consegue entrar em determinado espaço, mas em quem consegue permanecer, participar e se sentir confortável nele.

Esporte, lazer e convivência também são direitos

Matheus pratica atletismo e gosta de frequentar o SESI. São atividades que fazem parte de sua rotina e que mostram como a vida de um adolescente com deficiência não pode ser reduzida a escola, consultas e terapias.

A SBP recomenda que crianças e adolescentes com deficiência tenham acesso a atividades físicas, esportivas, culturais e de lazer. O documento destaca que essas experiências contribuem para o desenvolvimento, a saúde física e mental, a convivência e a participação social.

Essa perspectiva é importante para entender a inclusão social como algo que acontece ao longo de todo o dia, e não apenas durante o horário escolar.

Uma política de inclusão social precisa perguntar não apenas quantas crianças recebem atendimento especializado, mas também quantas conseguem praticar esporte, frequentar espaços culturais, brincar, conviver e participar da vida da cidade.

No caso de Matheus, o atletismo é uma dessas portas de participação. É um espaço em que ele não está apenas recebendo um serviço: está praticando uma atividade, desenvolvendo habilidades e ocupando um espaço de convivência.

Inclusão social também significa pensar no futuro

Matheus ainda tem dúvidas sobre o que pretende estudar ou qual profissão gostaria de seguir. Aos 15 anos, essa construção faz parte de uma fase em que planos e interesses ainda estão sendo descobertos. Mas a SBP chama atenção para a importância de que adolescentes com deficiência sejam estimulados a construir um projeto de vida, levando em consideração seus sonhos, desejos e angústias.

O documento defende que inclusão social durante a adolescência também precisa preparar para a vida adulta, com acesso à educação, aprendizagem profissional, esporte, cultura, lazer, convivência e desenvolvimento da autonomia.

Essa preparação não significa exigir que um adolescente já saiba exatamente o que fará no futuro. Significa garantir que ele tenha oportunidades para descobrir suas possibilidades.

Matheus já tem um sonho que sabe expressar com clareza: “Meu maior sonho é ir para a Disneyland.”

Pode parecer uma resposta simples, mas ela ajuda a lembrar que adolescentes com deficiência também têm desejos que não estão necessariamente relacionados à deficiência. Eles querem viajar, praticar esportes, sair com amigos, escolher uma profissão, conhecer lugares e construir suas próprias histórias.

A inclusão social também precisa permitir que esses sonhos existam.

O que Matheus pediria à cidade?

No fim da conversa, Matheus foi colocado diante de uma situação hipotética: se o prefeito de sua cidade estivesse à sua frente e perguntasse o que deveria mudar para que ele tivesse a vida que gostaria, o que pediria?

A resposta reúne boa parte dos desafios apresentados ao longo da entrevista. Matheus gostaria que as pessoas o considerassem um menino como qualquer outro e o tratassem com respeito, igualdade e educação. “Gostaria que as pessoas fossem mais educadas e ajudassem mais umas às outras”, afirma.

Ele também gostaria de mais acessibilidade e de espaços com menos barulho, para aproveitar melhor a cidade e conquistar mais autonomia. No fundo, seu pedido é ainda mais simples. “Gostaria que as pessoas me tratassem como qualquer outra pessoa”, resume.

A resposta mostra como a inclusão social, quando observada a partir da vida cotidiana, deixa de ser um conceito abstrato. Ela aparece na escola, no caminho para casa, no transporte público, no parque, no esporte, nas relações com os colegas e na possibilidade de sair sem depender sempre de outra pessoa.

A Sociedade Brasileira de Pediatria apresenta justamente uma visão de qualidade de vida que envolve desenvolvimento pessoal, autodeterminação, relações interpessoais, inclusão social, direitos, bem-estar e participação na comunidade. É uma perspectiva que amplia a responsabilidade das políticas públicas: não basta garantir o atendimento; é preciso criar condições para que a pessoa possa participar da sociedade.

Nesse sentido, a experiência de Matheus também serve como uma régua para olhar para as cidades. Existem políticas voltadas à inclusão social de adolescentes com deficiência? Há espaços de esporte, lazer e cultura acessíveis? Como as escolas combatem o bullying? Como Saúde e Educação trabalham juntas? Existem ações voltadas ao desenvolvimento da autonomia? E como os municípios lidam com necessidades de acessibilidade que vão além das barreiras físicas?

São perguntas que ajudam a transformar uma história individual em uma discussão coletiva.

Uma cidade que se adapta às pessoas

Um dos conceitos apresentados pela SBP ajuda a resumir essa discussão: a sociedade não deveria simplesmente esperar que todas as pessoas se encaixem em um mesmo modelo. É necessário criar ambientes capazes de considerar as diferenças.

É uma mudança importante de perspectiva. Em vez de perguntar apenas “o que Matheus consegue fazer?”, a inclusão social também exige perguntar “o que a cidade pode fazer para que Matheus consiga fazer mais?”

A resposta passa por acessibilidade, mas também por convivência, informação, respeito, autonomia e oportunidades.

Aos 15 anos, Matheus ainda está descobrindo o que quer fazer da vida. Já sabe, porém, algumas coisas que gostaria de conquistar: sair sozinho, aproveitar melhor a cidade, ser tratado com respeito e, claro, conhecer a Disneyland.

Ele não pede para que a deficiência deixe de existir. Pede para que ela não seja a primeira — ou a única — coisa que as pessoas enxerguem.

E talvez seja justamente aí que esteja o principal desafio da inclusão social: garantir que um adolescente com deficiência não seja apenas atendido, matriculado ou acompanhado, mas que possa viver, escolher, conviver, sonhar e participar.

Porque inclusão social não é apenas abrir uma porta. É fazer com que a pessoa possa entrar, permanecer, participar e se sentir parte daquele lugar.

Crianças Offline

Crianças Offline é uma série especial de reportagens do portal ABCdoABC que discute, junto com a sociedade, temas relevantes para o desenvolvimento de crianças e adolescentes.

No primeiro episódio, a série discutiu o impacto do uso de telas na infância. Depois, questionou cadê as brincadeiras ao ar livre e, no episódio seguinte, abordou a relação entre saúde mental e uso de telas nessa faixa etária.

Agora, no quarto episódio, Crianças Offline coloca em pauta a inclusão social e a deficiência, a partir da história de Matheus e das recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria.

A série também quer ouvir você. Que temas relacionados à infância e à adolescência precisam ser discutidos? O público pode participar pelo site e pelas redes sociais do ABCdoABC, enviando sugestões de assuntos que considera importantes para os próximos episódios do Crianças Offline.

  • Publicado: 27/08/2026 16:04
  • Alterado: 27/08/2026 17:21
  • Autor: Gabriel de Jesus
  • Fonte: ABCdoABC