A Casa Caiu em São Bernardo: Entenda o Escândalo
Afastado do cargo, prefeito é investigado por usar propina para bancar luxos da família, como faculdade e viagens, em um esquema milionário que envolveria vereadores e empresários.
- Publicado: 17/08/2025 10:29
- Alterado: 17/08/2025 10:29
- Autor: Redação
- Fonte: ABCdoABC
O cenário político de São Bernardo do Campo foi drasticamente alterado com o afastamento do prefeito Marcelo Lima (Podemos) do cargo por um ano. A decisão judicial, que também o obriga a usar tornozeleira eletrônica, é um dos desdobramentos da Operação Estafeta, uma ação conjunta da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público de São Paulo (MPSP). A investigação apura uma suposta organização criminosa dedicada à corrupção e lavagem de dinheiro através de contratos públicos. Com o afastamento de Lima, a vice-prefeita, a sargento da Polícia Militar Jéssica Cormick (Avante), assumiu interinamente o comando do executivo municipal.
O Coração do Esquema: O Operador e a Origem da Investigação
A investigação ganhou força a partir de um flagrante que revelou a magnitude do esquema. Em julho, a Polícia Federal apreendeu a impressionante quantia de R$ 14 milhões em espécie em um apartamento ligado a Paulo Iran Paulino Costa. Apontado como o operador financeiro e braço-direito de Marcelo Lima, Paulo Iran, que é servidor da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), está foragido desde o início da operação. Segundo a PF, ele era o responsável por recolher a propina de empresários e gerenciar uma espécie de “caixa-geral” do esquema, de onde saíam os pagamentos para os envolvidos e para as despesas pessoais da família do prefeito.
A Teia Política: Vereadores e Secretários Envolvidos
A operação expôs uma rede que, segundo as investigações, se estendia por diferentes esferas do poder municipal. O presidente da Câmara Municipal e primo do prefeito, Danilo Lima Ramos (Podemos), também foi afastado do cargo, suspeito de ser um dos beneficiários dos valores ilícitos. Além dele, o vereador Ary José de Oliveira (PRTB) foi alvo de mandados de busca e apreensão. A estrutura do esquema dentro da prefeitura contava ainda com a participação de Antonio Rene da Silva, diretor de departamento na Secretaria de Coordenação Governamental, que foi preso preventivamente.
A Conexão Empresarial: Contratos e Propina
A matéria-prima do esquema, segundo a PF e o MP, era o dinheiro desviado de contratos com a prefeitura. Um dos principais alvos da investigação é o empresário Luís Roberto Peralta. Em 19 de maio, sua empresa, a Boa Hora Central de Tratamento de Resíduos LTDA, assinou um contrato de R$ 21 milhões para serviços de coleta de lixo na cidade. Mensagens interceptadas pela PF mostram o operador Paulo Iran combinando o recebimento de valores de um contato salvo como “Beto”, que seria o apelido de Peralta. Em um dos diálogos, Paulo Iran confirma ao prefeito o recebimento de “100”, código que os investigadores acreditam se referir a R$ 100 mil. Outro empresário preso na operação foi Caio Fabbri, sócio da Quality Medical, empresa da área da saúde também com contratos com a administração municipal.
Vida de Luxo com Dinheiro Público: A Família do Prefeito
A investigação aprofunda a suspeita de que a vida de luxo da família Lima era diretamente financiada pelo esquema. De acordo com a Polícia Federal, o dinheiro desviado era utilizado para custear despesas pessoais, como a mensalidade de mais de R$ 8 mil da faculdade de medicina de sua filha, Gabriele Lima dos Santos. Mensagens interceptadas mostram o prefeito orientando Paulo Iran a realizar os pagamentos que, segundo a apuração, saíam diretamente de repasses de empresas contratadas pela prefeitura. Além da educação da filha, a organização criminosa teria bancado viagens internacionais, incluindo uma para os Estados Unidos, para Gabriele e a esposa do prefeito. A situação se torna ainda mais contrastante com a revelação de que a filha do prefeito recebeu auxílio emergencial durante a pandemia da Covid-19, período em que já seria beneficiada pelo esquema milionário.
A Operação Estafeta em Detalhes: A Ação da PF e do MP
A Operação Estafeta mobilizou um grande efetivo para cumprir 20 mandados de busca e apreensão em São Bernardo do Campo, São Paulo, Santo André, Mauá e Diadema. Além das prisões preventivas, a Justiça determinou a quebra do sigilo bancário e fiscal de 34 investigados. Durante a ação, foram apreendidos mais R$ 3,3 milhões em espécie, que se somam aos R$ 14 milhões encontrados anteriormente. Segundo as autoridades, o grupo atuava desviando recursos de contratos públicos, principalmente nas áreas de obras, saúde e manutenção, utilizando depósitos fracionados para não chamar a atenção do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Contexto e Consequências: O Futuro Político de São Bernardo
Com um histórico político que inclui mandatos de vereador e uma passagem como deputado federal, interrompida por cassação por infidelidade partidária, Marcelo Lima foi eleito prefeito em 2024. Em nota oficial, a Prefeitura de São Bernardo do Campo afirmou que irá colaborar com todas as investigações. O futuro político de Lima é incerto, com a possibilidade de prorrogação do seu afastamento e a abertura de um processo de cassação de mandato pela Câmara Municipal, o que pode redesenhar o cenário político da cidade.