Câncer ósseo infantil: a importância do sinal de alerta
Com cerca de 2,7 mil novos casos por ano no Brasil, atenção a dores persistentes nas pernas e braços é decisiva para evitar sequelas
- Publicado: 04/08/2026 15:31
- Alterado: 04/08/2026 15:31
- Autor: Daniela Ferreira
- Fonte: ABC do ABC
Quem nunca ouviu ou até disse para uma criança que a dor nas pernas era apenas “dor do crescimento”? Esse tipo de desconforto é comum durante a infância e a adolescência, mas nem sempre está relacionado ao desenvolvimento do corpo. Em alguns casos, pode ser um sinal de alerta para doenças mais graves, como o câncer ósseo.
Embora raro, o câncer ósseo pode se manifestar por dores persistentes que fogem do padrão esperado. A doença atinge principalmente crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos, faixa etária marcada pelo crescimento acelerado dos ossos.
Segundo a Sociedade Brasileira de Cancerologia, cerca de 2,7 mil novos casos são registrados por ano no país. Os tumores ósseos representam aproximadamente 2% dos tumores diagnosticados no Brasil e de 3% a 5% dos cânceres infantojuvenis. Entre os tipos mais frequentes estão o osteossarcoma e o sarcoma de Ewing.
O oncologista ortopedista Dr. Fábio Elói, membro da Associação Brasileira de Oncologia Ortopédica (ABOO), explica que ainda não existem causas ambientais comprovadas para o surgimento desses tumores. Por isso, diferentemente de outras doenças, não há uma forma conhecida de prevenção.
“O osteossarcoma e o sarcoma de Ewing ainda não têm causas completamente estabelecidas e não estão associados a fatores de risco ambientais. Há uma relação com períodos de crescimento ósseo acelerado. O que está ao alcance das famílias é o reconhecimento precoce dos sinais”, afirma.
Quando a dor deixa de ser normal?

Nem toda dor nas pernas ou nos braços indica um problema grave. Durante a infância e a adolescência, é comum que crianças sintam desconfortos relacionados ao crescimento. A diferença está na forma como essa dor se manifesta.
Segundo Fábio Elói, a dor do crescimento costuma aparecer no fim do dia, pode alternar entre um lado e outro do corpo e melhora espontaneamente. Já a dor provocada por um tumor tende a permanecer no mesmo local, aumenta com o passar do tempo e costuma se intensificar durante a noite.
“A dor associada a um tumor ósseo tende a ser localizada em um ponto específico, persistente e progressiva. Ela se intensifica à noite, sem melhora com repouso ou medicação habitual”, explica.
Uma dor isolada não significa, necessariamente, que a criança tenha um câncer. O oncologista Dr. Humberto Matos, do Instituto de Oncologia de Sorocaba (IOS), explica que o sinal de alerta aparece quando o sintoma persiste ou vem acompanhado de outras alterações.
“A dor se torna um sinal de alerta quando limita a criança em suas atividades, gera claudicação e vem associada a edema e rubor no local”, afirma.
Fadiga persistente, febre sem causa aparente e perda de peso também merecem investigação, principalmente quando surgem junto com a dor, afirma Humberto Matos.
Diagnóstico e tratamento

Nas últimas décadas, os avanços no tratamento reduziram significativamente a necessidade de amputações. Hoje, sempre que possível, o objetivo é preservar o membro afetado.
A terapia oncológica costuma começar com sessões de quimioterapia para reduzir o tamanho do tumor antes da cirurgia.
“Optamos pela realização de quimioterapia neoadjuvante antes da cirurgia. Com uma boa resposta, a possibilidade de preservação do membro chega a 90% dos casos”, afirma Humberto Matos.
A amputação fica restrita aos casos em que o tumor compromete estruturas importantes, como vasos sanguíneos ou nervos.
“A amputação ainda pode ser necessária quando o tumor envolve vasos ou nervos de forma irreversível. Mas são situações cada vez menos frequentes. A regra, hoje, é salvar o membro”, destaca Fábio Elói.
Quando o tumor é identificado antes de se espalhar para outros órgãos, as chances de cura aumentam significativamente.

“Crianças que fazem o diagnóstico precoce têm uma possibilidade de cura próxima aos 85%. Em casos com metástases, essa possibilidade reduz drasticamente”, explica Humberto Matos.
Fábio Elói reforça que a rapidez na investigação é decisiva.
“Quando a doença está localizada, a sobrevida em cinco anos gira em torno de 60% a 70%. Cada semana conta”, afirma.
Contudo, a raridade da doença e a semelhança dos sintomas com as dores do crescimento contribuem para o diagnóstico tardio do câncer ósseo.
Recuperação após o tratamento
Mesmo depois do fim do tratamento, o acompanhamento médico continua sendo essencial para a recuperação.
Segundo Fábio Elói, a quimioterapia pode deixar sequelas que precisam ser monitoradas ao longo dos anos, como alterações renais, cardíacas e perda auditiva. Além disso, algumas crianças podem desenvolver diferença no comprimento das pernas durante o crescimento e precisar de novas intervenções ortopédicas.
A reabilitação também envolve fisioterapia para recuperar força muscular, mobilidade e a capacidade de caminhar.
Humberto Matos destaca que o tratamento vai além da recuperação física. Para ele, o suporte psicológico é fundamental para ajudar crianças e adolescentes a enfrentarem as mudanças provocadas pelo tratamento, principalmente quando há amputação ou limitações permanentes, principalmente quando há amputação ou limitações permanentes.
“Nos casos de amputação, além das próteses, devemos pensar em acompanhamento psicológico. É um tratamento extremamente agressivo para uma criança”, conclui.