ABC tem um idoso a cada seis moradores
Especialista explica quando a suplementação pode ajudar após os 60 anos e alerta para os riscos do uso de vitaminas e minerais sem orientação profissional
- Publicado: 10/08/2026 17:55
- Alterado: 10/08/2026 17:55
- Autor: Edvaldo Barone
- Fonte: Octalab
O envelhecimento da população já é uma realidade no Grande ABC. Segundo dados do IBGE, a região reúne 465.587 idosos com 60 anos ou mais, o equivalente a cerca de 16% dos 2.789.011 habitantes. Na prática, aproximadamente um em cada seis moradores está nessa faixa etária, cenário que amplia o debate sobre longevidade, prevenção e os cuidados necessários para atravessar as próximas décadas com mais qualidade de vida.
É nesse contexto que abordagens como a medicina ortomolecular despertam interesse, especialmente pela associação com suplementação de vitaminas e minerais. Mas a popularização do tema também traz o risco de transformar suplementos em produtos de consumo indiscriminado, como se fossem indicados para qualquer pessoa. Em entrevista ao ABCdoABC, a farmacêutica Letícia Almeida, coordenadora de Pesquisa e Desenvolvimento da Octalab, ressalta que a avaliação individual deve anteceder qualquer estratégia de reposição nutricional.
Segundo a especialista, a medicina ortomolecular procura identificar e corrigir possíveis desequilíbrios nutricionais e metabólicos. Isso significa que a abordagem não deve começar pela escolha de uma vitamina ou suplemento, mas pela análise do paciente, considerando histórico clínico, alimentação, hábitos cotidianos e, quando necessário, resultados de exames. “A medicina ortomolecular é uma abordagem que busca identificar e corrigir possíveis desequilíbrios nutricionais e metabólicos do organismo. Na prática, o profissional avalia o histórico clínico, hábitos de vida, alimentação e, quando necessário, exames para definir estratégias individualizadas”, explica Letícia.
Depois dos 60, suplementação exige avaliação

O avanço da idade pode provocar mudanças importantes no organismo, inclusive na absorção de determinados nutrientes e nas necessidades nutricionais. Isso, porém, não significa que chegar aos 60 anos seja suficiente para justificar, por si só, o consumo de suplementos. A indicação depende das condições e necessidades identificadas em cada pessoa.
Quando há deficiência ou necessidade específica, a suplementação orientada pode integrar os cuidados destinados à preservação de diferentes funções do organismo. “Com o envelhecimento, é comum ocorrerem alterações na absorção de nutrientes e aumento das necessidades nutricionais. Quando existem deficiências identificadas, a suplementação orientada pode contribuir para a saúde óssea, muscular, imunológica e cognitiva, favorecendo um envelhecimento saudável e com melhor qualidade de vida”, afirma a farmacêutica.
A distinção é especialmente importante em uma população que pode fazer uso contínuo de medicamentos. Vitaminas e suplementos não são automaticamente inofensivos apenas por serem associados à nutrição ou vendidos sem a mesma percepção de risco de outros produtos. Doses inadequadas podem provocar efeitos adversos, e determinadas substâncias podem interferir na ação de medicamentos. “Vitaminas e suplementos também podem causar efeitos adversos quando utilizados sem necessidade ou em doses inadequadas. Além do risco de excesso de alguns nutrientes, eles podem interagir com medicamentos, se administrados de forma incorreta. Por isso, a orientação de um profissional é fundamental”, alerta Letícia.
Medicina ortomolecular não é sinônimo de suplementação

Embora os termos apareçam frequentemente juntos, suplementação, medicina ortomolecular e medicina integrativa não significam a mesma coisa. A diferenciação ajuda a evitar uma interpretação simplificada segundo a qual a abordagem ortomolecular consistiria apenas em prescrever vitaminas.
A suplementação, explica Letícia, é utilizada para complementar nutrientes. A abordagem ortomolecular, por sua vez, concentra-se na identificação e correção de desequilíbrios nutricionais e metabólicos. Já a medicina integrativa tem uma abrangência maior, associando o tratamento convencional a práticas complementares baseadas em evidências e considerando diferentes aspectos relacionados ao paciente.
A individualização também está por trás da procura por fórmulas manipuladas, que podem reunir vitaminas, minerais, aminoácidos, antioxidantes e outros ativos conforme a prescrição de profissionais habilitados. Nesse processo, aspectos como controle de qualidade, rastreabilidade e rigor na manipulação ganham importância justamente porque as formulações podem variar de acordo com as necessidades de cada paciente.
A possibilidade de recorrer à suplementação não altera o princípio básico do envelhecimento saudável, de que não existe vitamina capaz de substituir hábitos de vida adequados. Alimentação equilibrada, atividade física, sono de qualidade e acompanhamento profissional continuam sendo elementos centrais, enquanto suplementos podem atuar de maneira complementar quando houver indicação. “Envelhecer com saúde está diretamente relacionado à adoção de hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada, atividade física, sono de qualidade e acompanhamento profissional. Quando indicados, vitaminas e suplementos podem complementar esses cuidados, mas não substituem um estilo de vida saudável”, ressalta Letícia.
O mito de que vitamina não faz mal

Entre os equívocos que acompanham a popularização dos suplementos está justamente a ideia de que todos deveriam consumir vitaminas ou de que produtos considerados naturais podem ser utilizados livremente. Para a especialista, a necessidade precisa ser estabelecida individualmente, em vez de partir de uma suplementação generalizada. “Um dos principais mitos é acreditar que toda pessoa precisa tomar todos os tipos de vitaminas ou que, por serem naturais, elas não oferecem riscos. Na realidade, a suplementação sempre deve ser baseada em avaliação profissional. Quando existe deficiência comprovada ou necessidade clínica, ela pode ser uma importante aliada na promoção da saúde e da qualidade de vida”, esclarece.
Em uma região onde quase meio milhão de moradores já ultrapassaram os 60 anos, a discussão sobre longevidade tende a desencadear cada vez mais debates. Para além de buscar fórmulas associadas ao envelhecimento saudável, é preciso fugir de soluções plásticas e milagrosas, o essencial mesmo é recorrer a uma abordagem individualizada, identificar necessidades reais, considerar medicamentos já utilizados e recorrer à suplementação somente quando houver indicação adequada.