A violência de uma queda

Um escorregão banal, um degrau provocador e a violência silenciosa que mora nos detalhes

Crédito: Ilustração criada por IA (ChatGPT/OpenAI)

Ninguém anseia por cair. Creio que essa afirmação seja uma regra tão clara e sólida como as Leis de Newton. Mesmo o corajoso paraquedista não quer cair, pelo menos não mais do que o limite seguro de acionamento de seu equipamento, que lhe permitirá suavizar a descida até o solo. Assim, quando digo que ninguém deseja cair centro-me no ponto mais literal dessa frase, de que não existe uma pessoa que veja na queda alguma qualidade a ponto de ambicionar seus efeitos.

Passei os últimos dias em ponderação sobre isso depois de testemunhar uma queda, um simples escorregão, mas cujas consequências foram violentas e marcantes. Vamos à narração:

Eu havia concluído uma reunião no escritório de uma agência de publicidade e já me encaminhava para o estacionamento. Na entrada do local há um pequeno degrau, daqueles malcriados, travessos, indisciplinados. Este degrau não se contentava em ser um mero divisor de elevação entre o piso externo e o interno, ele precisava ser um obstáculo causador de problemas. Nós o vemos como uma plataforma de 12 centímetros, ele se vê como um pico que deveria ser inalcançável pelo homem e, logo, todos os que chegam ao cume, merecem uma queda instantânea como recompensa pela ousadia da escalada.

Esse degrau já havia dado sinais de sua implacável postura. Na chegada, um senhor que me acompanhava para a reunião tropeçou levemente nesse degrau. Cheguei a ouvir a gargalhada marota do elevado, jubiloso em fazer um idoso quase se acidentar. Olhei sério para o culpado, que me retribuiu o olhar passando o recado de que não tinha culpa, afinal, fora o humano que calculou errado a altura da pisada. Debochado. Relevei, mas registrei mentalmente: “Aí está um serzinho perigoso. Será bom evitar futuros contatos”.

Eu deveria ter colocado mais destaque na minha nota mental, afinal, na saída, o pequeno orgulhoso decidira concluir o que iniciara e meu velho camarada finalmente veio ao solo. A cena merece uma descrição que justifique o título desta crônica, então, aqui vai:

O piso do estacionamento é em declive, o que explica o degrau posicionado na entrada. Tão logo passou pelo umbral, o sênior sofreu o golpe. Seu corpo desabou como um objeto leve, lento o bastante para gerar expressões faciais de surpresa em todos nós que assistíamos à cena e rápido demais para que qualquer um pudesse estender a mão para evitar o acidente.

O problema, de fato, não foi a queda em si, pois ele tocou o solo com suavidade, amparado pelas mãos milagrosamente bem posicionadas. A violência se manifestou após a aterrissagem. Por conta do declive do terreno, somado à velocidade perfeita da queda e a massa do corpo, as duas primeiras leis newtonianas foram aplicadas: o corpo em movimento foi interrompido por uma força contrária quase proporcional. E esse quase fez toda a diferença. A aceleração do corpo fez com que ao tocar o solo ele ainda escorregasse não mais do que três centímetros extras que, mesmo um trajeto tão curto, resultou em uma cena à moda Tarantino. 

Tão logo conseguimos erguê-lo do chão, seu rosto já estava banhado de sangue, que gotejava no piso molhado pela chuva fina que caia e se diluía como uma aquarela vermelha contra um uma tela cinza. Uma pequena parte da pele esfolada se acumulava na lateral superior do supercílio esquerdo, aumentando a estética de terror. O líquido rubro vital lhe escorreu pelos olhos, nariz e barba, manchando sua jaqueta e respingando na calça cáqui. Três centímetros de percurso tornou um empresário em uma vítima de atentado, com o olhar assustado, coração acelerado e o desespero pela perda de sangue.

Todos que assistiam ao espetáculo desencadeado pelo degrau maroto acudiram a vítima. Uma cadeira, a caixa de primeiros socorros, muito papel higiênico, o antisséptico e alguns curativos deram conta de estancar o sangramento. O rosto limpo revelou apenas duas diminutas fissuras na parte mais superficial da pele, elevando a descrença de que o banho de sangue pudesse ter saído daqueles dois ínfimos pontos. 

O degrau me fitou novamente com um ar zombeteiro e vitorioso, porém se negou a gargalhar, pois eu lhe retribui o olhar com minha mais profunda reprovação. Não satisfeito, me inclinei até ficar bem próximo de seu ouvido, de modo que apenas ele pudesse receber minha mensagem: “Você é e sempre será apenas o suporte do capacho, baixa criatura vil. Não importune mais, serzinho desprezível”. 

A violência se manifesta onde menos se espera, pelos maiores ou menores agentes, que se alimentam do sofrimento causado. Felizmente, transposto os cinco longos minutos de duração desta cena, entramos no carro e fomos em silêncio ao nosso próximo destino. Cada um pensando à sua maneira na violência da queda e seu impacto em cada um dos envolvidos, seja na vítima ou nas testemunhas. Cuidado com o degrau.

Thiago Quirino

Thiago Quirino - ABC do ABC
Divulgação

Thiago é jornalista por formação e contador de histórias por vocação. Com mais de 15 anos de experiência entre redações, agências e instituições públicas, percorreu os vastos territórios da comunicação com olhar atento e escuta refinada. Formado pela Universidade Cruzeiro do Sul, especializou-se em comunicação estratégica, media training e gestão de crises, competências que o conduziram a posições de liderança, como Secretário de Comunicação de Ribeirão Pires e diretor de redação em diversos veículos. Atualmente, está à frente da Diretoria de Produtos Editoriais do portal ABC do ABC. Quirino acredita, com alma e método, que a comunicação bem feita não apenas informa, mas tem o poder de transformar realidades.

  • Publicado: 09/06/2025 16:35
  • Alterado: 09/06/2025 18:14
  • Autor: 09/06/2025
  • Fonte: ABCdoABC

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