A bondade de fim de ano
Quando a bondade vira costume de calendário, talvez seja hora de repensar nossas atitudes
- Publicado: 15/12/2025 11:38
- Alterado: 15/12/2025 11:39
- Autor: Larissa Rodrigues
- Fonte: ABCdoABC
Acho bonito o movimento de bondade que surge com o cheiro de panetone e pisca-pisca. É gente separando roupas para doação, a “caixinha” de fim de ano nos estabelecimentos, e uma empatia maior na hora de fazer compras. A desculpa? “O fim de ano no comércio é difícil.”
Isso me faz pensar: como se não fosse difícil o ano todo. Como se, de janeiro a novembro, os trabalhadores não tivessem que lidar com a mesma pressão e, muitas vezes, com a falta de educação do público, tudo isso em silêncio, porque dependem daquele salário para sobreviver.
Não é uma crítica, é um espanto: por que não praticar essa bondade o ano inteiro?
Por que esperar dezembro para doar aquela roupa? Afinal, sabemos que se você compra uma calça nova, a antiga vai ser esquecida no guarda-roupa. Por que a gorjeta extra só aparece no Natal? O funcionário que faz a diferença e te atende bem merece esse reconhecimento em qualquer época.
E a empatia? Só quem já trabalhou com atendimento ao público sabe o quanto é desafiador manter a calma. Por que não ter essa gentileza e respeito todos os meses?
As empresas também entram na dança. A confraternização de fim de ano é um ritual enraizado, mas questionamos: não seria mais justo e produtivo confraternizar com respeito e reconhecimento de forma contínua, o ano todo?
Se a organização passou os últimos meses desmotivando ou aborrecendo seus colaboradores, talvez fosse mais honesto e significativo celebrar o respeito mútuo ou o atingimento de uma meta desafiadora, e não apenas o mero calendário.
Afinal, de que adianta a celebração de dezembro se, com a virada do ano, a liderança esquece rapidamente que a longevidade e o sucesso da empresa dependem fundamentalmente do empenho e da colaboração diária de cada funcionário? A verdadeira confraternização acontece na bondade e valorização constante de quem constrói os resultados ano após ano.

Por fim, as famílias. Elas se reúnem, sorriem para a foto, trocam presentes. Sabemos que toda família tem seus problemas — isso é normal. Mas por que se juntar sabendo que a grande maioria fala mal de você o ano inteiro? Ou, pior, nem sequer estende a mão quando você realmente precisa?
Talvez o verdadeiro espírito de Natal não seja a reunião forçada ou a doação de última hora, mas sim o compromisso de levar o respeito e a bondade de dezembro para o janeiro seguinte.